“Tão pequena diante dos medos e dos problemas que a martelavam em seu interior, na cobiça de que ela se entregasse a seus próprios limites. Sophie, apesar de sua aparente fragilidade, apesar de sua leveza, que como folha o vento leva, desconhecia suas limitações, tinha tamanha repulsa por conceitos imutáveis, aversão à ignorância alheia, repugnância para com aqueles que deixavam-se levar pelos outros. Por outro lado, respeitava-os, e no fundo sentia pena, eia pois, tinham pensamentos tão inúteis, eram tão influenciáveis… Em meio a tudo isso, parava e voltava alguns passos sempre que ficava tempo demais a observar o quão imprevisível e metamórfico é o ser humano… E quanto ao sentimento de pena, arrependia-se, eis que, no patamar que se encontrava e que via o mundo, esse era um dos sentimentos mais insólitos e perversos. Em casa, era chamada de fortaleza, dizia-se até em uma maturidade tamanha, uma independência precoce; talvez fosse realmente assim. Sophie gostava da forma como sua família a enxergava, gostava de saber que sua responsabilidade e que sua ética faziam jus ao quão merecia. Entretanto, a menina robusta, resistente e forte que mostrava-se sempre em suas decisões, foi deixada de lado de pouco a pouco: aos olhos dos pais não necessitava da atenção dada aos outros filhos, ja que, mesmo sendo tão jovem, parecia tão crescida […] Um dia a disseram que os pais eram os últimos a saber o que se passava com os filhos, e no caso de Sophie, não era diferente. A garotinha que crescia com seus próprios passos guardava tantas coisas consigo… A família dela havia passado por muitos problemas há alguns anos, e estes refletiam-se de alguma forma até tempos remotos: desde então, a família nunca fora a mesma. Sophie ouvia de cá, de lá, precisava dar força a seus irmãos e seus pais, precisava fazer algo e impedir que tudo desmoronasse. Era sempre procurada quando sua mãe precisava fazer perguntas sobre sua irmã, ou quando sua irmã precisava desabar do sufoco da mãe. E prosseguia assim, tendo que dar o seu jeito para equilibrar-se; ainda sendo a mais nova, a menor e a mais leve da família, dava todo o seu corpo de apoio sempre que alguém necessitava. Estás compreendo erroneamente meu caro, Sophie nunca reclamou por isso, se pudesse, ajudaria sempre. O enigma estava no fato de que os problemas pelos quais passaram, foram alarmantes e gravíssimos para uma garotinha de 13 anos enfrentar da forma como enfrentou. E após isso, pareceu perder a atenção dos pais pelo que precisava, quando precisava desabafar, ou quando necessitava de um abraço. Seus pais pareciam ter colocado uma viseira diante dos olhos quando Sophie estava a frente. Não perguntavam da sua rotina, não perguntavam como ela estava, como havia sido o dia, como estavam os estudos, se algum garoto havia entrado em sua vida; e mesmo depois de 3 anos, nunca sequer sentaram para conversar a respeito daquilo que passaram, como ela sentia-se diante de tudo aquilo; porque eles achavam que ela havia superado, achavam que ela estava bem, que havia esquecido. Mal sabiam eles que frequentemente ela chorava em seu quarto, no banheiro, sentava-se de frente ao computador para escrever tudo o que sentia, exatamente por não ter com quem conversar. E onde estavam seus pais nesse momento? Preocupados demais em saber como estavam seus outros filhos, como estava a rotina deles, como havia sido o dia… Preocupados demais em saber se eles estavam bem. Sophie fingia não se importar com o fato dos pais terem na carteira as fotos dos seus irmãos, com exceção dela. Sophie também fingia não se importar todas as vezes que ia para as festas com sua irmã, e quando chegava a mãe fazia mil perguntas: somente a respeito de sua irmã. Passaram-se anos e ela ainda mantinha intacta a lembrança, a mágoa, a dor, as lágrimas que não pôde derramar por medo de que a vissem naquele estado. Até porque, se começasse a chorar, desabaria de vez, pelos anos que lotou-se de tanta dor. Pode ser que os anos passem e nada mude… E sabe aquela garota fria, fechada, que muitos reclamaram e criticaram pela forma ímpar e obstruída de ser? Eras ambígua, enigmática, silenciava-se quando precisava falar sobre si mesma…. Mas ainda assim, sentia. E sentia muito.”
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(Acalma-te Sophie, um dia passa… E se não passar, você aprende a lidar com isso…) Andressa Ruas, diasrotineiros. (via
cicloness)